Costa de Souza

Caricatura | Ilustração


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Sozinha

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Ai, que fio danado! Pera!

Calor infernal. Ninguém liga se eu levantar o vestido. Estou só numa das ruas mais movimentadas de Santa Catarina, mas é verão.

Ai, será que dá pra costurar isso?

Essa brasa nas minhas coxas…mesmo fora da saia, elas passam calor.

Logo acima delas, talvez logo apareça se eu levantar mais o vestido, está minha bunda branquinha e lisa, riscada pela pequena calcinha.

Mas quem liga pra isso agora?

Que droga! Se eu puxar, vai desfiar tudo de uma vez. O pai falou que é melhor queimar a pontinha pra não piorar.

Isso ela dizia, assim sem som, enquanto os operários da minha fábrica de palavras pararam para observá-la.

 


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Melamed, the face

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Eu não tenho ídolos. Na verdade, é o Michel Melamed que quer ser igual a mim. Barba, cabelo revoltado, teatro, jornalismo, poesia, música, tudo ele que copiou. Só o que é dele mesmo e eu ainda sonho imitar é a técnica genial para entrevistar artistas.

Pra mim, médicos e empresários são difíceis de se entrevistar. Mas, no exercício da profissão, a maioria dos jornalistas entra tanto em contato com essa gente, que acaba pegando o jeito. Se informar bem primeiro, fazer perguntas claras e objetivas, enfim, tudo para que o entrevistado não pense que se está tomando o tempo dele com conversa fiada.

O problema é quando chega um cara pra entrevistar o Pink Floyd e comete este desrespeito com o momento “bolinhas de fumaça” do Roger Waters.

O repórter, engessado, pergunta:

– Você é feliz?

– O que significa “ser feliz”? – o artista rebate.

– Você sente que está fazendo algo num caminho interessante ou não?

(Bolinhas. Muitas)

– O que significa “interessante”?

Pau no repórter, com muito merecimento! Pela cartilha do Melamed, escrita por trás das entrevistas dele pro Recorte Cultural, da TVE Brasil, não só é proibido ignorar as viagens de um artista com a fumaça de um cigarro, como é recomendável que dela se tire o motivo para a melhor conversa de todos os tempos com o artista.

A fórmula torna Melamed “the face” ( “o cara”, numa tosca tradução), por entender que o artista é dotado de maior criatividade que os demais mortais, e vive de exercitá-la e aprimorá-la. Por conseqüência, pra se dar bem com um deles, é preciso criatividade e improviso.

Melamed em cena

Essa se tornou a fórmula do Recorte, que deixa saudades aqui em Blumenau depois que a Furb TV cancelou o contrato com a TVE e passou a transmitir o Futura, este mês.

Ainda assim, Melamed vai me inspirar por muito tempo, e me fazer acreditar num jornalismo artístico muito mais competente que o praticado pela maioria dos jornais.

Dos programas no You Tube , recomendo este bloco do Recorte, com o ator Rodrigo Penna e o músico Tom Zé.

Na memória, ainda trago um final espetacular, quando, ao lado do artista plástico Zemog, Melamed pede:

– Vamos a um final diferente. Você vai falar pro telespectador desligar a TV. Nós não vamos acabar o programa. Quem vai acabá-lo é quem tá em casa.

– Desligue a TV. Vá ler um livro!

– É, a gente não vai mais conversar. Não tem mais programa. Desligue a TV!

Ficaram os dois ali, na enrolação. Eu, boquiaberto, sem noção de como levantar o controle remoto pra obedecê-los.

 


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Inédita

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Eternidade esse cabelo nos dedos, teu peso nos ombros assim bom de carregar, teu ir sozinha até ali pertinho e voltar pra mim

Teu sim teu sim teu sim, eu sou. 

Tudo meu onde mexeres há de ser ineditável.

Porque deste agora pra escrever-me cartas e contar segredos. Como se eu pudesse guardar pra sempre o que restar depois de ti.

Sou teu.

Porque guardas de mim até o que eu desconheço, pra contar pro meu biógrafo.

Inédita e eterna. 


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As indecorosas

Quebra de decoro. Este é o crime cometido contra mim por essas meninas desenhadas e escritas a partir de daqui a pouco no Texto Decorado.

A série devezenquandal começa agora e eu espero que não acabe.

Para ser desenhada e ganhar uns escritos, basta a menina gostar de si mesma e dos outros, se relacionar comigo e torcer para que nossos ânimos sejam bem compartilhados, discretamente ou nem tanto.

Os nomes de batismo não serão citados. Seria decoroso demais, não acham?

Beijos.


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Arte contemporânea no MAB

O Salão Elke Hering, aberto até 18 de fevereiro no Museu de Artes de Blumenau (Mab), prestigia artistas de várias regiões do Brasil, destaca o contemporâneo e valoriza a opinião do público, que pode votar no melhor artista para o Prêmio Especial até 18 de novembro.

Excelente iniciativa dos organizadores, comandados por Rafaela Hering Bell, coordenadora do Museu. As artes plásticas caem bem para os blumenauenses, que, em sua maioria não sabem mexer os quadris. Resta saber o que tem a dizer esse público sobre as obras apresentadas. Já que não dançam na Oktober – pulam – e não fazem teatro, espera-se ao menos que usem o tão aclamado intelecto herdado dos germânicos para avaliar com critério obras visuais e de literatura.

Votei e aguardo ansioso o resultado. As obras já premiadas pelo júri do Salão ficam de fora do Prêmio Especial. Mereceram os três primeiros lugares, e podem ser conferidos pelo público junto às obras que ainda concorrem. Destaque para “Ela me olha do alto”, de Sola Ries, e “sem título, fotografia plotada”, de Sofia Borges.

Dica

Não espere entender uma mensagem (vale ler um jornal para se manter bem-informado antes de ir à mostra). Arte contemporânea é para ser apreciada e, desta forma, brilha muito. Fugir do mundo, não ver o mundo, é a idéia. Para isso, respire fundo, concentre-se nas lembranças mais positivas e pessoas mais queridas, e deixe-se levar pelos corredores do Salão.

O Mab funciona no prédio da Fundação Cultural. O horário de visitação é de segunda à sexta- feira das 8 às 12 horas e das 13h30min às 17horas; sábados, domingos e feriados, das 10h às 16h.


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Cinéfilo, não! Só dei uma passadinha.

“Eu não faço questão de prestigiar o cinema”, repeti. Raciocínio da mágoa da minha juventude e da conclusão da infância. Tempos em que minha mãe me prometia me levar ao teatro no final de semana, e, não havendo espetáculo em exibição na Casa da Cultura de Itajaí, queria me compensar com uma sessão de cinema.

“Eu não quero cinema, eu quero treatrinho”, eu dizia. Isso ela conta.

O tal cinema, além de depender de máquinas, nos priva de imaginação. Vem tudo mais mastigado, de maneira geral, em relação ao teatro. Junte-se a isso minha raiva por não haver tantos leitores ou apreciadores de artes visuais ao meu redor, e o incentivo do governo estadunidense para aproveitar o cinema como propagador dos ideais nacionalistas, e está pronto meu discurso pré-fabricado.

Eu gosto de cinema, sim. Mas pra ver como o homem moderno assiste à novela. Vê, se diverte e depois diz que “deu uma passadinha pela sala e viu sem querer”. Assim. Eu nem vi 15 filmes na minha vida, se bobear. Assisto só por falta de opção. Acredite!


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Consolo dos inadaptados

Viciado no Recorte Cultural, da TVE Brasil, conheço pela tela a grande figura do jornalista Geneton de Moraes Neto. Disse:

 

“O maior dom do jornalista é a memória. É a partir dela que se faz jornalismo”; e…

 

“Todo grande artista tem que ser inadaptado ao mundo”

 

Quão reconfortantes frases estas, acrescentadas pela lembrança de uma entrevista de Geneton ao espetacular cronista Carlos Drummond de Andrade (seus poemas eu deixo pra quem gosta, e lamento). Diz o escritor:

 

“Me sinto sozinho, porque perdi pessoas queridas mas, por outro lado, ninguém que gosta de música e de livros pode se dizer um solitário”.

 

Durmo com essas, feito massagens.

 

Abraço a todos os blogueiros. Os bons também se sentem inadaptados. Aposto na ferramenta virtual para virar o mundo do avesso, e inadaptar a este mundo os que pouco pensam. Talvez fosse um lugar mais agradável. Não?

 

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Semana complicada para os desenhos, meus caros, mas por conta de momentos muito alegres. Retorno assim que a inadaptação bater mais forte.

 


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Vamos todos limerar

Achei o conceito pro que eu sinto: limerência. “Limerence”, da psiquiatra Dorothy Tennov. Não chega a ser amor, mas não é só paixão. Eu bem que achava essa palavrinha “amor” muito apelativa. Qualquer que seja a sensação, gostar de algo ou de alguém já nos traz à tona o mesmo verbete. Sem graça, pra mim, que gosto do diferente e que preciso expressar com clareza o que sinto.

 

A palavra tem 35 anos e serve pra tudo isso junto:

 

– Pensamento constante no objeto que desperta o sentimento

– Esquecer os defeitos do “objeto” em nome do sentimento

– Querer que seja recíproco

– Medo de rejeição

– Sentimento que se torna mais forte quando há rejeição do “objeto”

– Sensação de andar nas nuvens se for recíproco

 

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Não é atração sexual, porque isso não basta pra deixar alguém tão obcecado, nem paixão, porque não acaba rápido – normalmente dura décadas. Amor, então, nem pensar, porque amor é querer bem do outro, como entre amigos ou parentes.

 

A médica diz que isso é doença, então eu capricho:

 

Eu limero, tu limeras, ele limera…vamos todos limerar de uma vez que é bom demais!

 


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Melhor mulher do Brasil

Eu a reconheço de longe, mas experiências com outros empresários blumenauenses me fazem temer um encontro caloroso com a dona do Estúdio Criação. Chegamos mais perto e dou um oi apreensivo. Ela:

 Oi! Que foi? Tá economizando sorriso?

Sorrio e ela aprova.

Conheci Cristina Marques quando ela passou na Secretaria de Educação para tentar viabilizar o Projeto Troque Lixo por Livro, uma brilhante idéia da escritora para atender as crianças carentes de dinheiro e de leitura. Eu era assessor de imprensa da Secretaria. Ganhei um CD e um livro e fui me exibir pro pessoal da Comunicação da Prefeitura. Riram da minha alegria e perguntaram se eu tinha filhos. Guardei as obras e as releio de vez em quando. Maravilhosas. Não, não tenho filhos.

Dois anos depois, o Troque Lixo por Livro é um sucesso e Cristina concorre com outras mulheres ao Prêmio Cláudia como destaque nacional em projetos sociais. 

Conheça o Troque Lixo por Livro e vote em Cristina: http://premioclaudia.abril.com.br/finalistas_cristinam.shtml